sexta-feira, 12 de junho de 2015



Quando Rubem Alves me apresentou o que era poesia segundo Emily Dickinson, de pronto entendi o que era a poesia para mim. Se algo cria um redemoinho no meu interior e levanta lembranças ternas que já estavam assentadas como poeira no meu chão, então eu sei que aquilo é poesia. Se algo invade meu corpo como um rio de água quente que mesmo se todo o gelo da Antártida fosse jogado em mim eu não seria capaz de esfriar, então eu sei que aquilo é poesia.

Jéssica Alves

Frango com quiabo


Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Literatura e poesia dão pão para corpo e alegria para a alma. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta...

Rubem Alves

sexta-feira, 15 de maio de 2015


Saúdo-os e desejo-lhes sol, 
E chuva, quando a chuva é precisa, 
E que as suas casas tenham 
Ao pé duma janela aberta 
Uma cadeira predileta 
Onde se sentem, lendo os meus versos. 
E ao lerem os meus versos pensem 
Que sou qualquer cousa natural — 
Por exemplo, a árvore antiga 
À sombra da qual quando crianças 
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, 
E limpavam o suor da testa quente 
Com a manga do bibe riscado.

Fernando Pessoa
Não tenho ambições nem desejos
ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho

Fernando Pessoa

segunda-feira, 4 de maio de 2015



“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Amyr Klink

quinta-feira, 16 de abril de 2015


"Observei ainda e vi que debaixo do sol não é dos ligeiros a carreira" Eclesiastes 9:11

Observei ainda e vi que debaixo do sol não é dos ligeiros a carreira,

Eclesiastes 9:11

Andar correndo é descaminho. Existe muita história no andar da gente e quem só corre atropela os detalhes importantes. Um passo por vez é a marcha interna. Quem sai como louco por aí, vai só com o corpo e só escuta o som da alma quando já está aos berros.

Jéssica Alves

sexta-feira, 10 de abril de 2015



Carta aberta à minha querida irmã:

Há alguns dias, eu cheguei do trabalho, mal entrei em casa, e soube que você tinha comprado uma casa. Eu sabia que essa era uma coisa feliz, mas, ao mesmo tempo, caiu a minha ficha de que algumas coisas mudariam. É verdade que saudade e mudança são duas coisas que entraram na nossa vida bem cedo e tivemos que aprender a lidar com elas "na marra". Mas é que agora era diferente, muito diferente. Porque, antes, a saudade e a mudança eram enfrentadas com você do lado. Agora, essa saudade e mudança seriam em relação a você. 

Eu sei que eu me irritava profundamente quando você vinha com seu complexo de capitã mandona e me obrigava a te ajudar a arrumar a casa e, principalmente, quando você pegava as minhas coisas (sempre foi meu ponto fraco). Mas é que, apesar disso, te ter como irmã me fazia feliz. A gente sabe o quanto era divertido ir à praia e se misturar com as ondas e ser jogadas de um lado para outro das 8h da manhã até o meio dia, com pausa só para o sagrado picolé de leite condensado. 

O que eu não sabia é que cada fase nossa teria tanta beleza e tanto significado para mim agora. Nossas afinidades são enormes, nossa amizade e cumplicidade só aumentam. Com o passar do tempo, nos tornamos mais próximas, mais maduras nesse amor de irmãs, mais unidas do que nunca e ainda mais bonitas. (lembrando que você sempre foi naturalmente linda e eu bem "marromenos" seguia firme ao seu lado pegando todas as suas dicas).

Fico feliz em saber que vivemos a infância com intensidade e que aquilo que estamos vivendo agora também será lembrado com amor quando estivermos bem velhinhas. Que você compre chocolate branco quando completar 26, 27, 28... até os 95 mais ou menos - e me dê os pretos, por favor!

Feliz dia! Que o nosso Senhor te abençoe sempre!
Te amo!

terça-feira, 31 de março de 2015





Eu não sei me desvincular dessa paz que vem do alto e preenche os meus sentidos trazendo uma alegria de viver, uma vontade de sorrir pro nada, de não me doer com aquilo que os desgostosos costumam se doer.
É uma calmaria tão intensa que aquieta os dissabores dessa vida, eles começam a piar baixinho, baixinho e o segredo da paz é esse: o silêncio dentro, não fora.


Jéssica Alves

segunda-feira, 30 de março de 2015


                   O Utopista

Ele acredita que o chão é duro
Que todos os homens estão presos
Que há limites para a poesia
Que não há sorrisos nas crianças
Nem amor nas mulheres
Que só de pão vive o homem
Que não há um outro mundo.

                Murilo Mendes

quinta-feira, 19 de março de 2015


Ninguém faz poesia. Ela por si só existe e elege um canto-morada para se estabelecer. Vem um olhar cuidadoso, ou qualquer outro sentido nosso, e a arremata, dando início a uma série de suspiros. Que eu viva para isso, descobri-la, desnudá-la. Quem precisa de respostas na ponta da língua? Na minha língua quero versos e em meu peito, uma multidão deles.

Jéssica Alves

segunda-feira, 2 de março de 2015

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada. 

Alberto Caeiro

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015


Que eu preencha com poesia o espaço entre um sorriso e outro. As duas pontas serão a poesia em sua forma bruta, livre, fácil. O miolo disso será a poesia trabalhada, lapidada, que sai com demora, sufoco, esforço, mas que nem por isso tem menor beleza.

Jéssica Alves

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Razão de ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Paulo Leminski

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015



As minhas falas eu perdi pelo caminho. Não sei bem onde, quando e nem ao menos o porquê. O que eu sei é que comecei a sentir uma leve dor no peito. Era sintoma de cada palavra não dita. Fui enfurnando tudo aqui dentro e agora tenho feito um esforço danado para expulsá-las de outro jeito. A minha espontaneidade saiu devagarinho e deu lugar a um medo que nunca imaginei que caberia em mim. O meu riso fácil agora sai mais trabalhoso. Não dá pra entender. Era uma e agora é outra. Quem viu antes, já nem reconhece mais. Dá vontade de ir até lá e pedir desculpas um a um porque eu deixei morrer aquela outra, eu deixei que a matassem, coitadinha. Os de agora eu encaro facilmente porque não sabem o que foi perdido, não vão poder  mensurar nunca a dor da mudança. Eu, às vezes, até conto histórias, muitas em vão, ninguém acredita, pensam que é minha imaginação, exagero, invenção, não sei. Os de antes, sim, desses eu desvio o olhar. Quando param e me olham e só com o olhar eu sinto a cobrança, sinto o tamanho da falta que pus neles, porque a de agora não chega aos pés daquela de antes e ela também me enche de saudades.

Jéssica Alves

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015



Cada pequena coisa que vem de você alcança uma proporção tão grande no meu coração porque simplesmente vem cercada de sentimento, vem pra me atingir do modo mais certeiro. Eu fui programada para desejar o que eu não posso comprar e o que eu mais espero de nós se resume a isso, às coisas que eu não compro e nem pego com as mãos, só as alcanço se for com os meus sentidos.

Jéssica Alves

Não seja outro. Seja o que marquei em seu sangue. Enchi sua carne de você. Busque isso. E, ao encontrar, seja o que ninguém mais pode ser.

Ray Bradbury

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015


Eu corri anos em um corredor apertadíssimo e, quando cheguei ao final, havia uma porta de ferro coberta de fechaduras e cadeados de cima a baixo. A primeira reação foi descer o chute. Eu ia passar por ali de qualquer jeito, falem o que quiserem, ou melhor, fiquem todos calados, porque o que eu suei para chegar ali só eu sabia. Depois dos murros que eu dei em vão, recuei, dei meia-volta. Voltei calejada, de cabeça baixa, meio cambaleando, sem saber para onde ir. A minha vida havia sido reduzida àquela corrida e depois que vi a minha única saída trancada, tive que considerar qualquer janela aberta. Quanta beleza há na recuada! Quanta beleza vi em meu caminho após a meia-volta. Eu vi minha única saída ser transformada numa busca por novas entradas, me descobri adaptável, me conheci reinventada. Hoje, o meu maior prazer não está em estabelecer e completar maratonas, mas em sair delas sabendo que toquei num novo ponto do meu ser, que abri novas janelas dentro de mim e senti ar fresco circulando por lugares antes inabitados em meu ser.

Jéssica Alves

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, 

vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Adelia Prado

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015



Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Adélia Prado

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia seguir?
A quem importa o rumo
com um vento assim!

Olav H. Hange