sábado, 7 de janeiro de 2012

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
 Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
 Na bruta ardência orgânica da sede,
 Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

 "Vou mandar levantar outra parede..."
 - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
 E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
 Circularmente sobre a minha rede!

 Pego de um pau. Esforços faço. Chego
 A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
 Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
 Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
 Imperceptivelmente em nosso quarto!

Augusto dos Anjos

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