sábado, 5 de março de 2016

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. 
Mulher é desdobrável. Eu sou. 
(Com licença poética , Adélia Prado.)


Nunca sofri abuso sexual. Mas à minha moral foram apresentados socos que deixam aquele roxo latejante. Pedaços dela estão sendo comprados sem que eu tenha colocado à venda. Um chocolate. Uma flor. Um relógio.
Nunca arreganharam as minhas pernas. Mas arreganharam a minha reputação quando tentei reagir. Fui manchada, acusada, disputada como é um resto de comida por animais. Engraçado, até hoje essa moeda circula por aí com apenas um lado.
Cadê o outro lado da moeda? Isso sempre foi tão desproporcional. Minha avó que o diga. E a avó dela. E a avó da avó dela... Tantas mulheres já driblaram isso e eu insisto em rodear.
O outro lado é sempre tão bem visto, tão benquisto e tão convencível também. Basta pronunciar: Louca. Exagerada. Doente. Mal amada. Puta. E pronto! 
Quantos lugares serão frequentados sem que eu saiba se alguma das outras mulheres também estiveram ali? Quantas mensagens serão lidas? E quantas serão apagadas? Quantas vezes a culpa será redirecionada? Quantas vezes reduzirão a manchete o soco na cara?
Cada dia uma nova manchete de uma nova agressão contra uma nova louca. E cada pancada ali exposta vem doer exatamente aqui, no meu roxo latejante.


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