quinta-feira, 6 de novembro de 2014


Por muito tempo levei comida até a boca dos meus medos. Foram anos aninhada com as asas sobre eles. Era só a tempestade apontar no caminho, que eu corria, juntava cada um bem pertinho de mim e ficava ali, encolhida, esperando o vendaval passar. Vinha a calmaria e eu permanecia ali, aninhada, no mesmo galho, na mesma árvore. Meus medos eram tão famintos que não sobrava muito para mim, fui definhando. Dava pequenos voos e logo voltava, não podia deixá-los. As tempestades começaram a ser mais constantes e intensas, vinham com toda aquela força destruidora e arrastavam consigo um dos meus filhotes, sem que eu quisesse. Meu ninho foi esvaziando e, para o meu estranhamento, eu saía de cada tempestade mais forte. Comecei a me sentir nutrida, a ter mais fome de viver, dei voos mais distantes, desaninhei. Conheci muitos jardins, aprendi a cantarolar até na chuva. Às vezes me pego pensando que se eu me engaiolasse talvez tudo seria mais fácil, mas logo eu me lembro que sou imensidão, mal caibo nos limites do meu corpo, não caberei entre ferros.

Jéssica Alves

Um comentário:

Jackson Emanuel disse...

Gostei muito desse também....